a namorada do leo morreu em julho. eu tive uma crise de choro, e nem conhecia a menina. mas me via na situação, me identificava, a perda era sofrida demais. o leo é um amigo querido, e ainda hoje ele sofre. de repente a pessoa está ali, algo acontece e ela não está mais. hoje eu acho que o meu choro foi intuição. eu chorei por mim, porque eu viveria o luto. o namorado nao morreu, continua por aí, existindo. eu que morri. pra ele. eu morri e deixei de existir, assim de repente, vida que segue. engole o choro, como você nunca pensou que isso aconteceria. todo mundo agora parece que sabia. ah, eu imaginava. uma viagem afasta as pessoas. todo mundo imaginava. todo mundo sabia que eu ia morrer, menos eu. to aqui, lidando com o meu próprio cadáver.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
durma-se com esse barulho
o moço do estacionamento da terapia me perguntou se eu queria fazer o plano mensal.
4 de dezembro
a história é uma só. o quanto eu estou dilacerada, me arrastando pelos cantos. o quanto a maquiagem é lavada ao longo do dia, o quanto eu durmo mal, o quanto eu precisei que a lori deitasse os porta-retratos em casa porque sozinha, eu não conseguia.
sessões eternas de terapia, as lágrimas pingando enquanto eu pago o ticket de estacionamento sob olhares consternados do atendente que pergunta débito ou crédito. o rh da firma me perguntando se eu estou bem e eu dizendo que sim, que vou ficar, sem a menor certeza do que estou dizendo. muito de vez em quando parece claro, e depois desaparece. some. eu oscilo entre "ok, estamos conseguindo" e "meudeus, o que vai ser de mim". o psiquiatra recém inserido no contexto me dando um troço pra ajudar a dormir, e eu pedindo a ele algo que me ajudasse a estar acordada e lidar com a realidade. e ele me dando homeopatia. juro.
que vida essa minha em que o diagnóstico é coração partido e só o tempo cura?
minha vida foi fácil até agora. nunca perdi nenhum amor, primeira vez. eu romanceei o meu romance, e achei que ele duraria pra sempre, desconsiderei a verdade mais crua, a regra primeira. pessoas mudam de ideia.
que vida besta essa minha mania de achar que ser muito bom era suficiente. não era. que besta eu achar que ele não poderia mudar de ideia. ele poderia. ele pode. ele até mudou.
eu poderia mudar de ideia. não fui eu, mas podia ser. não que eu ache que eu mudaria. eu teria vivido a minha vida inteirinha ao lado dele, sendo feliz, feliz. e aí não deu, né? e agora eu tenho essa dor pra resolver. eu não posso ouvir nenhuma música, eu não posso conversar nenhum assunto. porque tudo lembra e tudo era a gente, e agora não sobrou nada.
eu até escorreguei para a raiva. como se ele fosse uma pessoa ruim, mas que mal existe em deixar de amar alguém? de ver que a vida é mais, e que talvez se queira outras coisas, outras paisagens, outras pessoas. podia ser eu. só que não foi. ele não é ruim. e nem eu. é que a vida aconteceu com a gente e eu, menina mimada, choro porque perdi meu presente.
27 de novembro
esse blog foi o lugar onde eu estive mais espalhada. depois que eu juntei os cacos, não cabia mais aqui. muita gente que me conhecia vinha, e eu estava exposta. eu nunca me recuperei de ter abandonado esse espaço. era eu. eu e a cidade. eu e as pessoas.
eu comecei a namorar com dois anos de são paulo. deixei de ser anônima. todas as minhas experiências foram guiadas por um nativo. não fui conhecer os parques porque eles eram muito cheios nos finais de semana. passei meus sábados e domingos entre almoços na casa da mãe, e da avó, e meu deus, como eu amei aquelas pessoas. eu me descolava do meu corpo e me via do alto, a sala de jantar, os sorrisos, a coca-cola especialmente comprada pra mim. eu fazia parte. eu fazia planos. eu juntava o meu sobrenome com o dele, eu falava dos filhos. eu fui tão absurdamente feliz. eu me distanciei da garota anônima. eu era paulistana, veja só. tinha compromissos familiares, uma vida que eu escolhia. eu deixei de explorar a cidade, eu comecei a ir do trabalho pra casa, eu perdi o foco no que tinha me trazido pra cá. eu troquei de emprego 3 vezes, fiquei desempregada duas vezes, duvidei de mim um milhão de vezes. me meti em confusões dantescas, que o juízo recem adquirido jamais me deixaria contar.
mas eu era feliz. eu não teria abandonado essa vida por nada.
e então eu fui abandonada. eu me encontrava nos meus escritos e eu parei de escrever. eu me perdi. eu virei uma dessas pessoas que anda na rua e segue horários, que sorri e finge prestar atençao em histórias aleatórias. eu enchi a casa de estantes e colori as paredes, e imprimi as fotos. e agora eu não sei o que fazer com nada disso.
acabou. eu tenho 35 anos recém completados e eu tive o meu coração partido pela primeira vez na vida.
nunca eu me senti tão estranha, tão estrangeira, tão anônima nessa são paulo que me engoliu sem eu nem perceber, enquanto eu era feliz, feliz.
voltemos ao início. eu acabei de chegar. eu preciso firmar os meus pés. eu estou espalhada. eu preciso buscar qualquer coisa que me lembre quem eu fui, quem eu sou e o que eu vim buscar aqui.
e agora?
24 de novembro
sem plano b
seis anos e três meses depois da minha chegada, são paulo testou meu amor. eu tatuei uma âncora porque aqui era meu chão, minha casa, meu eixo. ele quis ir embora, eu fiquei. era aqui o meu sonho. ele foi, eu olhei em volta e me senti estranha. não sabia mais muito bem o que me tinha trazido. voltei a ser anônima, voltei a ser sozinha. toda a história construída antes dele, e mantida com ele, se desconstruiu. então ele me disse que não voltava. e eu tinha ficado, cercada dos planos que eu tinha pra gente. eu precisei olhar em volta, e eu confesso que não sei muito bem o que eu vi, e nem o que eu vejo. não reconheço as ruas nem as pessoas. me olho no espelho e não me reconheço. tudo o que eu sei, tudo o que eu sabia, era nosso, era a gente. o que sobrou de mim? pra onde eu vou? o que eu faço? como eu volto pra esse lugar que tinha uma âncora e que eu me sentia segura?
é aqui que eu recomeço.
por enquanto
nos primeiros dias, eu tentei criar um milhão de blogs. nenhum nome servia. todos previamente utilizados para outras histórias. pensei o que eu queria com isso, que nome eu poderia chamar. lembrei da regina spektor, que eu tanto amo e não consigo mais escutar, veja só. eu espero que seja por enquanto. regina spektor é minha e sempre foi. eu não vou abrir mão dela, nem depois do coração partido. a coisa mais louca é o tanto que eu tenho escrito. não há lugar seguro para escrever. ele leria. começou assim, e eu tenho esses padrões de comportamento. não é que eu não vá voltar, veja bem. eu vou. de todos os tropeços das últimas semanas, acho que talvez essa seja o que mais se aproxima de certeza. eu volto. mas não agora, não ali. esse momento é meu. eu preciso escrever, então eu escrevo. fico escondida aqui. depois eu vejo o que eu faço.
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