eu fico me segurando pra não escrever. se eu escrever, ele lê. e eu não quero que ele me leia, não quero que saiba nada de mim. nunca mais, nunca mais.
o calor de são paulo faz meu estômago embrulhar, mas também pode ser a falta de comida. ou a falta de perspectivas. ou a falta de opção, já que fui jogada nessa vida que eu não queria. eu não queria. oscilo entre raiva, ressentimento. como ele pôde? como a pessoa consegue pegar um troço bonito e virar as costas, fingir que não viu, que nunca existiu? o troço bonito que eu tinha, e eu agora penso que eu tinha sozinha, ficou comigo, e foi deformando. agora é um troço feio, que ainda segue comigo, fazendo companhia ao estômago que ora embrulha ora arde. não é justo ter o coração partido nesse verão árido. é sórdido. seria menos sórdido se fosse inverno? seria menos horrível e desesperador?
agora eu odeio a cidade e odeio cada lembrança que eu construí. bem feito pra mim. eu não devia ter ido morar no que a gente tinha.